por Danilo
Anhas
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Ao invés de remédio – acho
que os médicos todos poderiam ser como esse do filme – o médico sugere que o
personagem principal visite um grupo terapêutico de homens com câncer
testicular, assim suas afirmações de que sofre com a insônia perderiam toda a
razão de ser. Logo no início já se percebe a dificuldade do protagonista entrar
em contato consigo mesmo, seja por conta da insônia, seja também por preencher
o vazio de sua existência consumindo e mobiliando seu apartamento.
Tamanha é a dificuldade
para entrar em contato íntimo consigo mesmo, que finge ser várias pessoas em
vários grupos terapêuticos. Ou seja, para tentar encontrar seu eu, ele
experimenta outros papéis, identifica-se com eles e isso surte efeito.
Todas essas dificuldades
vividas por ele são as vividas por muitas pessoas. Mergulhamos num determinado
tipo de existência sem sequer perguntar quem somos nós. Afundamos nas mazelas
do sistema capitalista, esquecendo-nos da ética que deve permear nossos valores e
moral. É como se a sociedade reprimisse nosso eu, fazendo-nos viver no
automático; o próprio personagem, que no começo é Rupert, Cornelius, é quase um
robô, funcionando no automático, ingênuo e abobalhado.
Quase um ano depois
frequentando os vários grupos terapêuticos e depois de ter se livrado da
insônia, um pesadelo em pessoa começa a lhe fazer lembrar do mal de antes:
Marla Singer, uma impostora que assim como nosso protagonista passa a
frequentar os mesmos grupos. Assim o insone rapaz não consegue mais representar
papéis diante de uma pessoa que faz a mesma coisa. No fundo, os dois
encontraram nos grupos uma possibilidade de compartilhar experiências, de serem
ouvidos e ouvirem. Espaços como esses estão ausentes em nossa sociedade, mesmo
nas famílias, onde o pai trabalha muito e chega cansado todos os dias, realidade
não muito diferentes das mães. Isso para citar um exemplo apenas.
Marla o incomoda muito
mais que a insônia. Ela é a própria insônia. Marla o faz viver fantasias
sexuais, algumas delas possivelmente inconscientes, eróticas e até de
destruição. Ele não consegue lidar com isso e decide se afastar de Marla. Ao
fugir ele não foge especificamente dela, mas sim do que ela representa em sua
mente.
Concomitantemente, ele
vive uma tremenda solidão, sobretudo em suas viagens a trabalho, de avião. Em
todas elas conhece pessoas durante os voos que chama de amigos “porção única”.
Isso reflete a fluidez dos contatos sociais da atualidade, ideias bastante
trabalhar pelo sociólogo Bauman. As pessoas se concentram no momento e apenas
nisso, no instante. Usam as pessoas como mercadorias mesmo, numa tentativa
inócua de lidar com a solidão dos tempos modernos. E é “voando” – e aqui cabe
perfeitamente um trocadilho com o verbo – que ele conhece o melhor amigo
“porção única”: Tyler Durden. Já no voo os dois se identificam.
Tyler representa para o
nosso amigo insone aquilo que ele gostaria de ser, talvez uma juventude
perdida, não à toa escolheram Brad Pitt para o papel. Tyler surge como um
hedonista – corrente filosófica que diz que o prazer é o bem supremo -, viril,
inteligente, mas com aspectos rústicos, aqueles condenados pela sociedade:
mijar na comida e falar de sexo sem pudor. Tais características o insone não
vislumbrava em si mesmo, o que o leva a admirar mais e mais Tyler.
Após voltar do voo no qual
conhece Tyler, retorna para o apartamento onde mora e o descobre em chamas,
completamente destruído. É um choque para esse consumista que até cogita em
pedir ajuda para Marla, mas o faz com Tyler pelo telefone: a ‘ligação” entre
ambos se estabelece.
Tyler não o consola,
apesar do insone estar aparentemente abatido por ter perdido seus pertencentes
tão valorizados pelo seu consumismo que o outro acusa de ser insensato. Tanto
que o adverte sobre o consumismo, utilizando conceitos marxistas, tais como o
de fetiche da mercadoria e diz: você
é aquilo o que você compra. Mas isso Tyler não valoriza. Dessa forma, insere
outra visão de mundo para o insone, que começa a ver as coisas sob outra ótica.
Ao saírem do bar onde essa
conversa rola, Tyler pede que o insone lhe bata. No começo acha ridículo o
pedido, mas acata. Os dois brigam e se arrebentam. Passam a morar juntos numa
casa abandonada, totalmente insalubre. É uma mudança radical na vida do nosso
insone, que continuo o chamando assim apesar de ter voltado a dormir bem
novamente.
As sessões de briga
continuam naquele bar e começa a agregar novos membros. Formam um grupo secreto
com suas próprias regras do qual somente homens podem participar.
Paradoxalmente em todas as brigas os elementos lealdade e respeito estão
presentes. Lutar é forma de libertação. A agressividade é algo com o que tentam
lidar, eles não a negam tal como fazemos na sociedade, que em lugar de tentar
compreendê-la, a reprime.
Cabe ressaltar que nessas
lutas há intensa presença do masoquismo e sadismo, conceitos basicamente
psicanalíticos de Sigmund Freud. Sentem prazer em apanhar como uma maneira de
se livrar dos desejos mundanos, ou como forma de punição por nutri-los. Sentem
prazer em bater, punindo aqueles que desejam as coisas do mundo, livrando-os
desse mal.
Além disso, pode-se dizer
que há certa valorização da juventude no sentido de viver perigosamente, sem se
preocupar com as consequências, elemento marcante na personalidade de muitos
jovens e adolescentes. E se esse tipo de conduta diz respeito à juventude e a
juventude é um valor que até os mais velhos desejam possuir, esse “viver
perigosamente” não é algo fortuito nem peculiar somente aos adolescentes e
jovens, pois numa sociedade que valoriza a juventude, todos querem ser jovens e
se manter assim. Lembra-se aqui da cena do acidente de carro. A própria
formação de um grupo, o Clube da Luta, é algo muito peculiar da adolescência,
isso porque os adolescentes tendem a andar e formar grupos numa busca de se
identificar com coisas novas.
Esse grupo tem um líder, e
ele é Tyler Durden, um líder aparentemente democrático – embora eu não ache que
ele seja – que comanda as ações do grupo, estas que passam a ser mais
terroríficas e se dirigem à sociedade: explodir lojas, brigar com os outros e
ameaçar as pessoas... É como se todas essas ações fossem a antítese para uma
sociedade consumista.
Um filme americano de
sucesso fazendo crítica ao consumismo? Nem pensar! O insone retratado como
problemático descobre em meio a muito confusão que ele próprio é Tyler: o
criador e líder de um movimento que agora pretende gerar o caos explodindo
prédios de cartão de crédito/débito. Tal movimento se espalhou pelo país
inteiro sem Tyler saber.
Durden, a projeção
idealizada e alucinada do pobre insone, faz todas essas atrocidades sem
perceber. Inclusive Marla o acusa de ser instável e problemático. Ele é o louco
que de repente se rebela contra o sistema, querendo muda-lo através de atos
violentos, embora ninguém de sua gangue mate ninguém. Aliás, o filme peca, pois
trata da violência como partindo unicamente do Clube da Luta. Tudo bem que um
de seus membros morra, mas ele morre por estar fazendo uma coisa “errada”.
Separo um trecho de Paulo
Freire (p. 58) no qual ele diz: “Inauguram
a violência os que oprimem, os que exploram, os que não se reconhecem nos outros;
não os oprimidos, os explorados, os que não são reconhecidos pelos que os
oprimem como outro.” A violência tem início nos que estão no poder.
E sobre o desejo de
mudança, o que falar? Quem deseja mudar o mundo e o sistema um insano, louco,
maluco, que sofre de insônia? No final ele consegue destruir os prédios, o
plano final. Após travar uma luta consigo mesmo, assume a própria
personalidade. Era isso, afinal, contra o que ele lutava em suas crises de
insônia: aceitar que não aceita o sistema e seu modo de vida. Atinge seu
objetivo, mas o que vem depois? O caos? O caos nem sequer é mostrado. O filme
acaba. O caos é retratado ao longo do filme como problemas individuais: o cara
com câncer, o insone maluco, a mulher suicida... De alguma forma as histórias
se cruzam, mas quando o caos vai se instalar de forma geral, na sociedade, não
se exibe.
Eis o fim. Não se mostra o
caos, ele fica num plano mais individual e assim continua a ser: se tudo está
ruim na sociedade é por culpa dos sujeitos e só isso. Aliás, talvez culpa
daqueles que ensejam mudanças. Aliás, lutar para mudar a sociedade é loucura e
é assim retratada no filme. Você esperava que um filme da sociedade mais
capitalista fizesse apologia à transformação social?
Para os donos do poder
somos apenas uns babacas que repetem tudo o que eles ditam, tais como aqueles
que explanam repetidamente “Robert Paulsen”. Talvez a crítica resida aí, mas
estaríamos novamente culpando as pessoas por nossas mazelas. No fundo, quando Tyler
aceita quem é, ele aceita a sociedade em que vive. Tanto que o caos não se
mostra. O filme acaba. Ele se conforma, pois mata aquele que enseja mudanças.
Mudanças? A união dos membros do Clube da Luta deveria ser em prol da
transformação e não da destruição. Para encerrar, novamente Paulo Freire (p.
61): “[...] a superação autêntica da
contradição opressores-oprimidos não está na pura troca de lugar, na passagem
de um polo a outro. Mais ainda: não está em que os oprimidos de hoje, em nome
de sua libertação, passem a ter novos opressores”. E Tyler é oprimido,
oprime e depois? Ele se liberta? O filme acaba. Não se mostra.