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Há um tempo atrás escrevi uma paródia para a música do Mano Chao, Clandestino, que intitulei Um Busão Lotado. Busão é uma forma carinhosa e quase um disfarce gentil para chamarmos um veículo, que apesar do “ão”, parece não ter espaço algum.
Apesar disso, é interessante observar a dinâmica dentro de um ônibus. Imagine: ele está lotado, não há espaço para passar, você pede licença para o ser humano à sua frente, que dá um pequenino passo, você passa; encosta na pessoa e de repente você percebe ela lhe encarar com cara feia. Mas é inevitável encostar. Se você fosse a pessoa a dar licença faria o mesmo com o sujeito que se encostou a você. Agora por que todos querem passar por nós e ir para o fundo do ônibus? O que é que tem lá, além da porta, que todo mundo quer ir para lá?
Em dias de chuva é uma coisa muito complicada. Basta uma gota, basta uma gota no ombro de alguém sentado, que este alguém fecha a janela. Dentro de um ônibus sentimo-nos sufocados já ao entrar e ainda tem um ser humano que fecha a possibilidade de o ar entrar. E não podemos reclamar, pois ele está sentado. Ele tem o direito de abrir e fechar a janela quando quiser. É interessante que ficamos com raiva, mas dentro de um ônibus conseguimos manter o autocontrole. Ainda em dias de chuva, há pessoas que decidem fechar o guarda-chuva dentro do ônibus e, com os braços esticados e o objeto encharcado em mãos, molham as pessoas ao passar pela catraca. Tem sempre aquele cidadão, que quando você está sentado, para em pé ao seu lado, com aquele guarda-chuva gentilmente umedecendo seus pés.
Em dias de calor é também bastante complicado. Há também pessoas que fecham as janelas nesses dias. Eu gostaria de ter uma explicação lógica para tal, mas no momento não disponho de uma. O contato físico em dias quentes parece ser obrigatório. Corpos suados, corpos fedidos... Tudo conspira contra você chegar limpo e cheiroso ao seu destino.
Entretanto, os motoristas sofrem. Ao entrarmos em qualquer ônibus é possível ver uma placa enorme de troco máximo. Contudo, as pessoas sempre insistem em pagar com uma nota maior que o troco máximo. Todos nós esperamos compreensão do motorista. Todos nós ficamos revoltados quando damos o sinal e ele não para e lá do fundo gritamos: oh motor! Com um ônibus lotado nem pensamos que o motorista pode ter seu campo de visão diminuído e não perceber que ainda pode ter gente para descer em algum ponto. Daí, lá do fundão, gritamos novamente: oh motor, abre a porta! Ficamos indignados quando damos sinal no ponto de parada e o motorista não para pela razão de o ônibus estar lotado. Mas mesmo assim reclamamos e não agradecemos que ele nos poupou de irmos pendurados nas costas de alguém.
Foi a tiazinha que fechou a janela, foi ela que deixou o guarda-chuva pingando nos nossos pés... Foi o tiozão que roçou as coxas nas nossas traseiras... Foi um idoso que nos roubou um assento... Foi a empresa responsável pelo transporte da cidade que aumentou o valor da passagem... Mas é no motorista que descarregamos a fúria. Com o perdão do trocadilho, dentro de um ônibus, a única vez que perdemos a “linha” é com o motorista. Dentro de um ônibus todos possuem um bode expiatório em comum: o motorista!
Vídeo: Um Busão Lotado (Danilo Anhas)